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Um mistério chamado Flappy Bird e a hipocrisia do jornalismo de games

Você pode odiá-lo, amá-lo, mas uma coisa você não poderia fazer: ignorá-lo. Flappy Bird surgiu como um estranho fenômeno nas mídias sociais e nas principais lojas de apps. De repente, o jogo, de mecânica absurdamente simples e dificuldade alta apareceu nas primeiras posições em rankings de downloads da iTunes Store e da Google Play.

Especula-se que parte do hype começou após o jogo aparecer em um vlog famoso no youtube, com mais de 22 milhões de inscritos no canal. A partir daí em um estranho efeito dominó o famigerado Flappy Bird ganhou a mídia – tanto da internet quanto da tradicional. Muita gente especulou que o seu criador, o vietnamita Nguyen Ha Dong havia usado bots para escalar seu jogo até o topo dos rankings, mas me parece que tudo realmente não tenha passado de pura sorte, como o próprio Nguyen havia declarado.

Tudo ficou ainda mais interessante quando o desenvolvedor declarou ao The Verge que o jogo estava lhe rendendo em média 50 mil dólares por... dia, apenas com publicidade dos banners dentro do jogo, já que o mesmo é gratuito. Como em todo fenômeno de internet, surgem os justiceiros e de herói, Nguyen passou a vilão plagiador, pelos elementos gráficos típicos da série Mario da Nintendo, que também estavam presentes no jogo, como o gráfico pixelado e os tradicionais canos verdes. A própria estrutura simples do jogo também parecia ser chupinhada de outros games mais antigos, e a mídia e as pessoas passaram a pegar no pé do sujeito, desta vez taxando-o de "ladrão".

Há alguns dias, mais um pouco de tempero foi adicionado em toda essa história: o criador do Flappy Bird anunciou que, em 22 horas, estaria retirando o game de todas as lojas de aplicativos. Como alguém ganhando 50 mil dólares por dia poderia abdicar disso por nenhum motivo aparente? Teria ele recebido uma ameaça de advogados da Nintendo para retirar o jogo antes que fosse processado? Porque 22 horas? Porque não 24, 20, 10? Porque anunciar que iria retirar o game das lojas apenas alguns dias depois de atualizá-lo?

Em seu perfil no twitter, Nguyen disse simplesmente que o jogo havia "arruinado a sua vida simples", e que agora o odiava por isso. Disse ainda que a retirada do jogo das lojas não tinha motivos legais e que não venderia o game para possíveis interessados.

O que estaria se passando pela cabeça do pobre/rico Nguyen? Apesar das inúmeras possibilidades aventadas internet afora eu só enxergo duas delas. Ou a Nintendo realmente forçou a barra para cima do sujeito, afinal de contas os seus canos verdes são patenteados ou... o que pode ser o mais provável, ele não aguentou a fama repentina. Sei que é um conceito simplista, mas, lhes asseguro, é incrivelmente real e mais comum do que imaginamos.

Devemos ainda lembrar que ele mora no Vietnam e não conhecemos o seu contexto social ou mesmo pessoal. Culturalmente, sabemos que países asiáticos podem ser muito diferentes do que estamos acostumados a aceitar como "normal" e, no fim das contas, todo esse drama pode estar resumido apenas a alguém que criou um pequeno jogo utilizando-se de fórmulas e scripts pré-fabricados facilmente encontrados na internet e não conseguiu lidar com todo o assédio proveniente de uma fama repentina e as consequentes polêmicas que lhe acompanharam.



Triste notar mesmo foi o backlash, a reação furiosa das pessoas quanto ao "plágio" dos canos de Mario ou à mecânica de jogo. Não estou legitimando a cópia, mas é interessante notar que coisas assim acontecem literamente todos os dias, e partindo de empresas "sérias" e "de renome" como a Gameloft, que simplesmente copia na cara dura todo e qualquer jogo de sucesso, além de outros exemplos ainda mais óbvios, como Candy Crush copiar descaradamente a mecânica de Bejeweled. Veja bem, estão todos errados e deveriam ser punidos por isso, mas ver a reação exacerbada contra um desenvolvedor indie que errou e ao mesmo tempo notar o incrível silêncio a respeito do mesmo plágio praticado por estas grandes empresas é assustador.  Notar essa omissão partindo de jornalistas especializados em games e tecnologia é mais assustador ainda. Cachorro morto não reage ao ser chutado, não é mesmo?


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